A educação diz respeito a uma forma de relação entre pessoas na qual o ensinar e o aprender são um elemento central. Essa relação estabelece algo em comum entre essas pessoas, uma comunidade. Um dos principais desafios de uma educação democrática é fortalecer formas de viver em comum que procurem garantir que aquilo que temos de incomum seja preservado e valorizado. A educação começa a se fazer democrática quando reconhecemos que todas as pessoas encarnam diferentes saberes e diferentes formas de viver e que todos e todas têm algo a ensinar e muito a aprender.
O conhecimento construído em cada relação educativa é único, porque é fruto do diálogo entre os diferentes mundos trazidos para dentro de cada comunidade por cada pessoa que faz parte dela. Negar a potencialidade do diálogo entre todos esses saberes e tentar reduzir esse processo à transmissão de um conhecimento abstrato, que não conversa com a realidade dos estudantes, é a primeira marca de uma educação autoritária. A versão local do conhecimento produzido em uma aula sobre a instituição dos direitos trabalhistas na Era Vargas com pessoas adultas que já trabalham e estudam na modalidade da Educação de Jovens e Adultos é muito diferente daquela produzida em uma aula com jovens que nunca trabalharam, apesar do tema ser exatamente o mesmo.
As comunidades educativas são constituídas pelas pessoas envolvidas nessa relação, mas também pela conexão indelével com o momento histórico e os territórios nos quais elas estão situadas. Uma aula de história sobre a ditadura civil-militar depois do 8 de janeiro de 2023 é muito diferente que qualquer outra que tenha acontecido antes, assim como qualquer aula de ciências sobre como funciona uma vacina, muito diferente de qualquer outra anterior à epidemia de COVID-19. E as aulas sobre qualquer um desses dois temas variará muito de acordo com o território no qual está situada essa comunidade educativa e os grupos sociais que ajudam a compor as turmas. Por isso a educação ambiental é vital para uma educação democrática: nós fazemos parte da natureza e não podemos negar a necessidade de debater os impactos da ação humana no mundo que compartilhamos.
Algumas relações educacionais fazem parte da própria dinâmica de algumas comunidades que se reúnem em torno de uma variedade de características em comum e outras são constituídas pelo próprio fenômeno educativo. Esse último tipo pode se constituir em uma variedade de espaços e algumas, em instituições de ensino. Existem uma série de práticas que fortalecem a democracia em comunidades educativas constituídas em instituições (gestão democrática, laicidade, educação em direitos humanos, etc.) e outras que a enfraquecem, dentre elas a violência é especialmente danosa. O estabelecimento de uma cultura de combate à violência é vital para uma educação democrática e explica o foco do nosso Observatório.
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