Um levantamento nacional realizado pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE), vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF) e nascido de parceria com o Ministério da Educação (MEC), apresenta um panorama inédito sobre uma forma de violência sofrida por profissionais da educação em razão do seu ofício. O relatório Um estudo quantitativo da perseguição a educadoras/es no Brasil analisa dados produzidos junto a 3.012 educadores de todo o país, da educação básica e superior, no âmbito da educação pública e privada.
Ele foi lançado publicamente hoje (13) em audiência na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, com presença de movimentos sociais, sindicais e parlamentares defensores do direito à educação que vêm atuando no enfrentamento às violências contra professores no estado. Esse estudo é o primeiro volume de uma série de pesquisas do Observatório, Ameaças à educação democrática, que investigará as novas configurações da violência contra professores no país.
A análise revela a dimensão dessa conjuntura enfrentada pelos educadores no Brasil, mostrando que pelo menos 90% dos docentes de cada uma das regiões do país já sofreram, presenciaram ou souberam de casos de censura a colegas do seu entorno, indicando que este é um fenômeno disseminado em todo o país.
Os dados também evidenciam picos das situações de censura em anos eleitorais, especialmente em 2018 e 2022, indicando potencial correlação entre o acirramento político e a repressão ao trabalho docente com temas que são plataformas de mobilização política durante os ciclos eleitorais.
As principais situações relatadas envolvem proibições e recomendações para evitar temas considerados “polêmicos” por parte da população, especialmente questões políticas (73%), gênero e sexualidade (53%), questões religiosas (48%), negacionismo científico (41%) e questões étnico-raciais (30%). Conforme outro estudo, a pesquisa Educação, valores e direitos (2022), sabe-se que famílias de tendências conservadoras variam a sua adesão à ideia de que professores devem evitar certos assuntos em sala de aula conforme tais temas sejam nomeados como “política partidária” ou “desigualdade social”, por exemplo.
Uma forma de violência em razão do ofício na educação
Essas formas de censura podem se dar por diferentes formas, mais ou menos agressivas. O estudo argumenta que essas diferentes formas e o alto impacto desses processos sobre as vidas profissionais e pessoais dos educadores indicam que a censura funciona como uma forma de violência contra educadores, cometida em razão do seu ofício.
Entre os respondentes que foram diretamente censurados, 58% relataram tentativas de intimidação, 41% sofreram questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho e 35% enfrentaram proibições explícitas de conteúdos. Os educadores também relataram ter sofrido demissões (6%), suspensões (2%), mudança forçada do local de trabalho (12%), remoção do cargo ou função (11%), agressões verbais e xingamentos (25%), e agressões físicas (10%).
A pesquisa perguntou aos respondentes a dimensão do impacto dessas situações sobre suas vidas profissionais e pessoais. Os resultados podem ser vistos abaixo. No geral, o impacto é alto sobre os dois âmbitos da vida, inclusive para aqueles que não foram vítimas diretas de censura sobre seu trabalho.
A pesquisa mostra que há um clima de medo e silenciamento nas escolas, o que faz com que, dos respondentes que tiveram experiência direta com a censura e afirmaram terem sido impactados por ela, 60% começaram a pensar mais sobre o que falam em seu trabalho, 59% se sentem inseguros e vigiados, 53% pensaram em mudar o local de trabalho e 2% decidiram efetivamente não permanecer na carreira docente.
O relatório completo pode ser baixado no botão abaixo.



